A noite de segunda, dia 19 de outubro, marcou uma data expressiva para os amantes da arte underground feita no Brasil. O show das bandas Ratos de Porão, realizado no bar Opinião, comemorava 30 anos de Lançamento do LP “Crucificados Pelo Sistema”. A banda contou com a mesma formação do histórico registro. A abertura do show foi da também histórica Os Replicantes, que desfilou alguns dos seus clássicos para um público ainda tímido, mas querendo entrar no espírito da coisa.
Os Replicantes fazem parte da história do punk e do hardcore brasileiro. Suas letras são inspiradas em futuros apocalípticos, festas punks, crônicas sexuais e, com a vocalista Julia Barth, alguns libelos anti-machista, o que casa bem com o estilo da banda. Fiquei chateado por não terem tocado “Astronauta” e “Sandina”, mas o Repli tem muita coisa para tocar e certamente fizeram jus ao convite de estarem juntos nessa noite de celebração do punk nacional.
Enquanto estávamos todos nos
preparando para o segundo round (copa e banheiro, na correria!!) fiquei
pensando que se Os Replicantes, para mim, representavam um punk meio classe
média porto alegrense (suas letras são provas disso), o Ratos era pura
periferia. Aquele Ratos, que junto a dezenas, centenas de outras bandas, davam
a cara para bater e denunciavam as violências do cotidiano dos moradores de
todas as periferias do mundo. O lançamento do LP “Crucificados Pelo Sistema”
foi saudado como o primeiro do estilo na América Latina.
Certamente, antes do RAP virar o
hino de toda uma geração segregada pelo capitalismo nas grandes cidades, era o
punk quem dava a oportunidade para os jovens expressarem seus sentimentos e
frustrações. Ouvindo algumas das canções a gente percebe que são absurdamente
atuais. A polícia brasileira segue sendo uma das que mais mata no mundo, o FMI
segue explorando as nações pobres do mundo e a guerra segue sendo a tônica do
sistema. A história do Ratos de Porão é das mais ricas nesse cenário. Taxados
de traidores do movimento desde seu primeiro álbum, eles seguiram seus
instintos e são responsáveis pelos primeiros sucessos do crossover no Brasil.
Ao aproximarem-se do heavy metal
criaram uma legião de fãs que estavam sedentos por velocidade, peso e crítica
social, algo muito em falta no metal. De traição em traição e depois o João
Gordo traiu a tudo e a todos e virou artista de TV, a banda foi em frente e
conta com uma discografia de respeito nacional e internacional. As
consequências disso foram vistas nessa noite.
Em torno de umas 500 pessoas no
bar e seguramente a maioria trajava camisas pretas de bandas heavy: Iron,
Pantera, Slayer, Metallica, Sepultura (a grande parceira do Ratos na virada dos
anos 80 pros anos 90), agitavam bastante a cada porrada que a banda soltava de
cima do palco. É claro que havia também os representantes legítimos do
movimento punk, com suas jacas rebitadas e cabelos moicanos. Todos em uma
grande confraternização, como o momento exigia.
Um cara todo suado (estropiado) sorria ao meu lado comentando que havia
perdido os tênis no pogo. Outro, um guri de 19 anos, Gabriel Batista, com sua
jaqueta cheia de patchs de bandas metaleiras e cabelos pela cintura bradava a
importância do Ratos de Porão para a música pesada no Brasil. A rapaziada das
bandas locais também deu as caras. Conversando com o Ricardo Ratão, batera da
Leviaethan, ele me dizia que era o quarto show que ele assistia, além de outros
3 que participou da abertura. Não é pouca coisa. Isso demonstra a relação da
banda com o público rio-grandense.
O show foi curto, intenso e
divertido. O vocalista João Gordo segue sendo um carismático frontman.
Particularmente eu curto muito o timbre de voz e suas rasgadas de garganta são
impressionantes. Mingau (guitarra), Jabá (baixo) e Jão (bateria), formação
responsável pela gravação do LP, há 30 anos, seguiram firmes no veloz hardcore
da banda. Uma ratiada ou outra no início de algumas músicas deixou o clima
descontraído, a galera não se importou nem um pouco.
Afinal de contas era festa e os caras
merecem respeito por toda sua história. Muitos fãs das antigas estavam lá para
reverenciar e relembrar, como o caso do Sergio Nos, o Aranha, que veio de
Osório, de uma audiência, direto para o Opinião. Tudo para lembrar da loucura
dos anos 80. Os mais jovens também não se queixaram. A Pâmela Pantera, punk de
seus 18, 19 anos, nem é tão fã da banda, mas não podia perder esse encontro.
Afinal, um show do Ratos de Porão em Porto Alegre é um acontecimento social!
Cobertura por: Marcelo Cougo
Fotos: Billy Valdez
Revisão/edição: Renato Sanson
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